Friday, December 17, 2010

Um dia diferente

                Desde que nasci a minha vida tem sido feita de sonhos e histórias vindas da minha cabeça. Sempre pensei que o meu príncipe encantado iria um dia lutar dragões, monstros, bruxas e feiticeiros para me salvar do último quarto da torre mais alta do castelo a cavalgar no seu cavalo branco. Este é o sonho que cada rapariga tem desde a primeira vez que ouve um história de encantar. Esta minha paranóia também começou nessa altura, sempre fui fã deste tipo de histórias e por alguma razão sempre achei que a vida real seria como uma fantasia.
                Dois dias antes de entrar no meu último ano de faculdade fui ao cinema com as minhas amigas, já não me lembro qual era o nome do filme mas sei que foi um dos melhores filmes que alguma vez vi. Mal o filme acabou arranjei uma desculpa para me ir embora, não era tarde mas nesse dia tinha um pressentimento de que tinha que sair daquele lugar. Então sem mais demoras inventei um jantar qualquer e saí porta fora. A caminho da paragem do autocarro vi uma rapariga a ser rodeada por um grupo de rapazes nessa altura continuei a andar, era natural verem-se grupos em que havia muitas poucas raparigas no meio de rapazes incluindo eu que também tinha muitos amigos do sexo oposto. De repente parei. Ouvi um grito meio abafado que me levou de novo àquela esquina húmida e escura.
A rapariga que pela qual anteriormente tinha passado estava encostada à parede e prestes a ser atacada por aqueles rapazes que estavam com ela, não sei de onde é que ganhei coragem mas fui proteger a rapariga. Afastei os rapazes de maneira a chegar a ela, peguei-lhe na mão e tentei escapar daquele sítio mas quando dei por mim estava encurralada com ela, tentei defender-nos mas não consegui grande coisa embora seja boa lutadora. Sem saber o que fazer mais protegi-a com o meu corpo, estávamos encostadas a um caixote do lixo, agachadas e só se ouviam gritos, choros e as nossas vozes, as de nós as duas e as dos rapazes, quando entenderam que ao bater em nós não nos iam conseguir afastar agarraram em nós e puxaram uma para cada lado. Dois dos rapazes agarram-na pelas pernas e braços, a mim um rapaz agarrou-me com uma mão pela cinta prendendo-me também os braços e a outra mão no meu pescoço ia lentamente apertando-a de maneira a que eu ficasse sem forças para me mover. Havia mais outros dois rapazes que se limitavam a observar, pareciam estar a gostar do pânico e do medo reflectido nos nossos rostos, até que um deles passou à acção. Aproximou-se da tal rapariga e começou a rasgar-lhe o vestido. Por mais que “lutássemos” contra eles não encontrávamos maneira de escapar, por mais que gritássemos ninguém nos ajudava parecia que as ruas de um instante para o outro tinham ficado desertas mas por uns instantes conseguia-se ouvir os passos das outras pessoas, de repente só se podiam escutar os sons dos rapazes a rirem-se, as nossas vozes de aflição a implorarem para nos soltarem e os nossos choros. O rapaz que estava a rasgar a roupa dela e ninguém o parava, comecei a espernear-me a mexer-me para todos os lados de maneira a que me pudesse soltar o único pensamento que tinha na cabeça era que a tinha que ajudar não importava o que me acontecesse, finalmente consegui livrar-me da mão que me estava a asfixiar e comecei a gritar com toda a força que me restava. Mal começou a ouvir a minha voz o segundo espectador tapou-me a boca e disse-me para não me preocupar porque havia “diversão” que chegasse para as duas, mal acabou a frase fez um sorriso cínico e ao mesmo tempo nojento que me fez dar a volta ao estômago.
Com a mão dele a tapar-me a boca eu já não conseguia pedir ajuda só se ouviam uns gemidos vindos da minha boca. A sua mão livre estava a percorrer-me o corpo, começando por me desapertar o botão e o fecho das calças, em seguida tirou-me o casaco e puxou o top para cima de modo a que se visse o soutien. Eu estava a tremer e ele estava com o mesmo sorriso anterior estampado na cara. Começou por lamber-me o pescoço e a tocar-me no soutien, quando voltei a ver a cara dele disse-me:
-As raparigas bonitas deviam de ficar em casa e não se meterem em confusões.
Não sei porque razão mas aquela frase mexeu comigo, comecei a recuperar a força que tinha perdido e defendi-me. Mordi-lhe a mão e dei-lhe um pontapé nos seus genitais.
-E as criancinhas como tu deviam ficar fechadas em casa a brincar com os seus bonequinhos.
Começaram a ouvir-se passos na nossa direcção, eu ouvia-os, mas naquele momento estava mais intrigada a ver o reflexo dos olhos confiantes e seguros que eu mostrava naquela altura. Os passos eram cada vez mais audíveis até que nós as duas vimos dois vultos a aproximarem-se, um em direcção a ela e outro na minha direcção. Pensei que eram mais amigos deles, então fechei os olhos com medo. Ouvi um barulho. Voltei a abrir os olhos e apercebi-me que estava livre. Os rapazes que nos tinham prendido e os nossos salvadores estavam a lutar, o que tinha tentado violar ainda estava com dores e o outro observador estava em estado de choque, eu ainda não estava a pensar direito e a outra rapariga estava a tremer deitada no chão. De repente olhei para ela e peguei nos nossos casacos e corri na sua direcção, agarrei-lhe uma das mãos e puxei-a dali para fora, quando começamos a correr o observador em choque olhou para nós e num salto põem-se de pé e começa a perseguir-nos.
Mal deixamos a esquina e chegamos à rua escondemo-nos na entrada dum prédio, aí dei-lhe o casaco dela e vesti o meu, apertei as calças e olhei em volta, quando me deparei outra vez com a minha “companheira”. Ela estava a tremer e a chorar, por instinto abracei-a e tentei-a acalmar com festas na cabeça e a dizer que ia ficar tudo bem, que isto era só um pesadelo. Eu continuava a olhar em meu redor até que me deparei com o nosso perseguidor a uns metros de distância, comecei a rezar para ele não nos encontrar mas já era tarde de mais ele já estava a andar na nossa direcção. Naquele momento não tinha nenhum plano mas consegui observar todos os seus traços, ela também se apercebeu dele e tal como eu levantou-se e começou a chegar-se para trás até embater na porta. Eu pus-me à frente dela como protecção, ele estava cada vez mais próximo e de repente surgiu-me uma ideia.
-Toca a todas as campainhas. – murmurei-lhe.
Ela fez o que lhe pedi e ele estava a uns passos de nós, tentou ver o que ela estava a fazer mas eu estava-lhe a tapar a visão. Ele começou a esticar o braço na minha direcção e nesse momento comecei a gritar.
-Socorro! Chamem a polícia!
Repeti estas frases várias vezes até que toda a gente começou a olhar para nós. ele começou a correr e nesse preciso momento ouviu-se uma voz vinda da campainha.
-Quem são vocês?
-Por favor chame a polícia. – foi nessa altura que ouvi pela primeira vez a  voz dela depois de termos fugido da esquina.
A confusão acumulou-se à nossa volta mas ninguém se apercebia do que é que se estava a passar, então eu tirei o telemóvel do bolso do casaco e liguei para o 112 para pedir ajuda. Ela estava abraçada a mim enquanto fazia a chamada e continuou até que os rapazes que nos tinham salvado nos terem encontrado.
-Luísa, onde estás? – chamaram-na.
Mal eles chegaram ao pé de nós, a rapariga que estava abraçada a mim cujo nome era Luísa largou-me e foi a correr para os braços de um deles. Eu limitei-me a sorrir por ela estar a salvo, no momento que me ia embora o outro rapaz vinha ter comigo.
-Estás bem?
Fiquei paralisada com o seu olhar. Quando voltei aos meus sentidos voltei-me e corri em direcção ao autocarro que estava a chegar à paragem. Ele já se tinha virado para o outro lado quando eu disse.
-Cuida dela.
Nesse momento entrei no autocarro e ele seguiu-o com os olhos até este dar a curva.


Lily Mead Mein